AUTO DA CABRA – INTERPRTAÇÃO

( Carlos Drummond de Andrade)

Madrugada. O hospital , como o Rio de Janeiro, dorme. O porteiro vê diante de si uma cabrinha malhada, e pensa que está sonhando.

___ Bom palpite. Veio mesmo na hora. Ando com tanta prestação atrasada, meu Deus.

A cabra olha-o fixamente:

___ Está bem, filhinha. Agora pode ir passear. Depois você volta , sim?

Ela não se mexe ,séria.

___ Vai , cabrinha, vai. Seja camarada. Preciso sonhar outras coisas. É a única hora em que sou dono de tudo, entende?

O animal chega-se mais perto dele, roça-lhe o braço. Sentindo-lhe o cheiro, o homem percebe que é de verdade, e recua.

___ Essa, não ! O que é que você veio fazer aqui, criatura? Dê o fora, vamos .

Repele-a com um gesto manso , porém a cabra não se move, encarando-o sempre.

___ Aiaiai! Bonito.Desculpe, mas a senhora tem de sair com urgência, isto aqui é um estabelecimento público. ( Achando pouco convincente a razão.)Bem, se é público devia ser para todos , mas você compreende….( Empurra-a docemente para fora, e volta à cadeira.)

___ O quê? Voltou? Mas isso é hora de me visitar , filha? Está sem sono? Que é que há? Gosto muito de criação, mas aqui no hospital, antes do dia clarear……( Acaricia-lhe o pescoço.) Que é isso! Você está molhada? Essa coisa pegajosa….O quê; sangue?!?! Por que não me disse logo cabrinha de Deus? Por que ficou olhando assim feito boba? Tem razão : eu é que não entendi, devia ter sacado logo. E como vai ser? Os doutores daqui são um estouro, mas cabra é diferente, não sei se eles topam. Sabe de uma coisa ? Eu mesmo vou te operar!!!

Corre à sala de cirurgia, toma um bisturi, uma pinça : à farmácia pega mercúrio-cromo, sulfa e gaze; e num canto do hospital , ajudado por dois serventes , enquanto o dia vai nascendo , extrai do pescoço da cabra uma bala de calibre 22, ali cravada quando o bichinho, ignorando os costumes cariocas da noite , passara perto de uns homens que conversavam à porta de um bar .

O animal deixa-se operar com a maior serenidade. Seus olhos envolvem o porteiro numa carícia agradecida.

___ Marcolina. Dou-lhe este nome em lembrança de uma cabra que tive quando garoto, no Icó. Está satisfeita , Marcolina?

__ Muito, Francisco.

Sem reparar que a cabra aceitara o diálogo, e sabia seu nome, Francisco continuou:

___ Como você teve a idéia de vir ao Miguel Couto? O Hospital Veterinário é na Lapa.

___ Eu sei, Francisco. Mas você não trabalha na Lapa, trabalha no Miguel Couto.

___ E daí?

___ Daí, preferi ficar por aqui mesmo e me entregar a seus cuidados.

___ Você me conhecia?

___ Não posso explicar mais do que isso, Francisco.As cabras não sabem muito dessas coisas. Sei que estou bem ao seu lado, que você me salvou. Obrigada , Francisco.

E lambendo-lhe afetuosamente a mão fechou os olhos para dormir; bem que precisava.

Aí Francisco levou um susto, saltou para o lado:

___ Que negócio é este???cabra falando? Nunca vi coisa igual na minha vida. E logo comigo, meu pai do céu!!!

A cabra descerrou um olho sonolento , e por cima das barbas parecia esboçar um sorriso:

___ Mas você não se chama Francisco, não tem nome do santo que mais gostava dos animais neste mundo?Que tem isso, trocar umas palavrinhas com você? Olhe, amanhã vou pedir ao Ariano Suassuna que escreva um auto de cabra, em que você vai para o céu, ouviu?

 

VOCABULÁRIO:

Auto = homenagem , dedicatória                                                     Icó= cidade do Ceará

Repelir= tocar, ignorar, mandar embora                                       Miguel Couto = nome de um hospital do Rio de Janeiro.

 

PARTE I – TESTES

(ASSINALE A  ÚNICA RESPOSTA CORRETA  EM CADA QUESTÃO.)

 

1.”___ Bom palpite. Veio mesmo na hora. Ando com tanta prestação atrasada, meu Deus.” O palpite era de que:

a) uma  cabra viria vê-lo                                                          d) ganharia , se jogasse no “ bicho”.

b) poderia vender a cabra e pagar as prestações .                    e) iria para o céu por tratar bem os animais.

c) ficando com a cabra economizaria o dinheiro do leite.

 

2.O porteiro do hospital:

  1. percebeu imediatamente que a cabra precisava de ajuda.

b)sonhou que uma cabra tinha aparecido, mas não era verdade.

c)só acreditou que a cabra estava ali porque conversou com ela.

d)tratou o animal como se fosse uma aparição do céu.

e)no começo , não sabia se o aparecimento da cabra era real ou imaginário.

 

3. “ É a única hora em que sou dono de tudo, entende?” Essa frase sugere que :

a) no sonho, Francisco se esquece da pobreza e se considera dono de tudo.

b) por ser a única pessoa acordada ali, ninguém mandava nele e , por isso, fazia o que queria.

c) por ser porteiro noturno, quem mandava no hospital àquela hora era ele.

d) por ser pessoa simples e de bom coração , não sentia falta de nada e achava que possuía tudo.

e) Francisco não era ambicioso.

 

4. “…isto aqui é um estabelecimento público.( Achando pouco convincente a razão)”. A observação entre parênteses sugere que:

a) em “estabelecimento público” ninguém pode entrar.

b) o termo “estabelecimento público” é, às vezes, mal empregado , porque nem todos podem entrar.

c) somente animais são impedidos de entrar em “estabelecimento público”.

d)  animais não são impedidos de entrar em estabelecimentos públicos.

e) “ estabelecimento público” é um lugar que qualquer pessoa pode entrar.

 

5. Assinale a afirmativa VERDADEIRA  em relação ao texto:

a) a cabra foi operada pelos médicos do hospital.

b) o porteiro deu o nome à cabra de Marcolina em homenagem à sua mãe.

c) o porteiro pôs a cabra fora do hospital com violência.

d) o porteiro operou a cabra com a ajuda de dois serventes.

e) o porteiro operou a cabra na sala de cirurgia do hospital.

 

6. A cabra foi ao Miguel Couto e não ao Hospital Veterinário porque:

a)O Hospital veterinário ficava longe demais e ela não sabia o caminho.

b)A cabra não sabia a diferença entre o hospital de gente e de bicho.

c) queria ser tratada por Francisco que trabalhava no Miguel Couto e não no Hospital Veterinário.

d) teve medo de morrer antes de chegar ao Hospital Veterinário.

e) não sabia que veterinários tratam de animais.

 

7. O nome que Francisco deu à cabra se deve :

a) à saudade da terra natal.                                                                d) ao acaso, não lhe veio outro nome à mente.

b) ao seu sentimento religioso.                                                          e) por ser nome de sua filha .

c) ao mesmo nome que sua mãe tinha.

 

8. “ Vai, cabrinha, vai.” A repetição do verbo indica:

a) fala de pessoas de pouca cultura.                                                              d) irritação diante da teimosia.

b) insistência num pedido.                                                                            e) tentativa de esconder a cabra.

c) ordem que não se discute.

9. Em “ Madrugada. O hospital, como o Rio de Janeiro, dorme.” . temos , respectivamente,as seguintes figuras :

a)  metáfora                                               d) prosopopéia

b) pleonasmo                                             e) hipérbole

c) eufemismo

10.O nome do santo que mais gostava dos animais neste mundo é :

 

a) São Francisco de Paula                                d) São Francisco de Sales

b) São Francisco Xavier                                   e) São Francisco de Assis

c) São Francisco de Jesus

 

NÃO RASURE ,POIS A QUESTÃO RASURADA SERÁ ANULADA .

 
PARTE II- QUESTÕES DISCURSIVAS

1.Em “ Que tem isso, trocar umas palavrinhas com você?”Neste caso, não cabe o valor exato de diminutivo ( = palavras pequenas). Qual é , então, o significado da palavra grifada?
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2. “ Corre à sala de cirurgia, toma um bisturi, uma pinça ; à farmácia , pega mercúrio-cromo, sulfa e gaze….” . Que verbo está elíptico antes da expressão “ à farmácia”? E  que idéia  esse verbo pode sugerir?
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3. Francisco resolveu , por sua conta operar a cabra.Levando em consideração , que ele não era veterinário e usou material que deveria ser usado para doentes, você julga que ele agiu corretamente ? Por quê?
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4. Reescreva as frases destacadas do texto , na linguagem culta.
a) “…devia ter sacado logo.”
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b) “Os doutores aqui são um estouro.”
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“ A grandeza de um país não depende da extensão de seu território, mas do caráter de seu povo.” ( Golbert)

 

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