OS HERÓIS DO COTIDIANO

Jorge Linhaça
Quando eu tinha por volta de meus cinco anos de idade, fui chamado para salvar uma princesa ( garotinha ) que havia se trancado acidentalmente em uma masmorra ( banheiro).

Do alto de minha posição de cavaleiro, ajudado por meus escudeiros, alcancei a janela da masmorra e, esgueirando-me por entre  o basculante, consegui invadir a torre onde a princesa chorava copiosamente.

Assim que pisei no solo, muni-me de minha lança ( rodo )  e passei a desferir certeiros ( na medida do possível ) golpes contra o monstro ( tranca ) que impedia a abertura da porta.

Libertada a princesa,  fomos ovacionados pelos nossos súditos ( familiares e amigos), aliviados com o bom desfecho da história.

Ao longo da vida tive outros momentos de heroísmo ocasional, impedindo que amigos caíssem de carros em movimento, socorrendo vítimas de acidentes, apagando pequenos incêndios e outras coisas quase que banais.

Mas , não foi para falar de mim que inicie esta crônica, apenas a minha pequena aventura me veio à lembrança e considerei que seria um bom gancho para o assunto.
Muitas vezes, em nosso imaginário, os atos heróicos tem que ser em grande estilo, salvamentos arrojados, sacrifício da própria vida, coisas bem “holliwoodianas” mesmo.

O que passa despercebido em nosso dia a dia são os atos de heroísmo que acontecem ao nosso lado.

Parece inacreditável não e´? Mas existem atos heróicos diários, acontecendo ai bem perto de você.

Não…não vão ser noticiados em redes de TV, são pequenos atos que não dão IBOPE e que, antigamente seriam bastante naturais mas que hoje se tornaram de um heroísmo peculiar.

Curioso? Já vamos chegar lá…

Permita-me falar especialmente da juventude, apenas para exemplificar, afinal não existe época da vida em que desejemos mais ser heróis do que nossa juventude.

As meninas sonham com um príncipe ( seja lá de que tipo for) que a libertará da vida que leva ( seja lá que vida for ) e os rapazes sonham em ser os bravos cavaleiros ( sejam de que tipo forem) que vão modificar o mundo ao seu redor.

Pois bem, o que posso assegurar é que existem centenas, milhares, talvez milhões de jovens em todo o mundo que, heróicamente resistem aos apelos da sociedade atual.
São jovens que, independente da religião professada, aprenderam que existe uma palavrinha chamada NÃO, e a usam com uma frequência e capacidade impressionantes.

A cada “NÃO” proferido por esses jovens, eles enfrentam as mais diversas formas de agressão ou desafio.

Os rapazes são logo taxados de maricas e as garotas de caretas, filhinhas da mamãe ou sei lá mais o que…

Dizer NÃO  às drogas ílicitas é até mais fácil, pela própria ilegalidade embora , é claro,envolva hoje também algum esforço e,
dependendo de onde se vive e com quem se vive, eu diria que um ENORME  esforço…
Dizer NÃO ao álcool  e ao fumo é relativamente mais difícil,  já que são drogas consideradas legais… e quem as consome é considerado “legal”…aí é que vem a chacota com toda a  força, aí é que vem as cobranças de amigos e até de familiares…

É preciso uma boa dose de heroísmo para não sucumbir à pressão da “galera”.
Dizer NÃO ao sexo fora do casamento, à promiscuidade  é mais que heróico, em uma sociedade onde as novelas fazem isso parecer a coisa mais natural do mundo.

Até a “novelinha para adolescentes” prega essa promiscuidade sexual descaradamente e a “sociedade” tão alerta para coisas com menos importância como a quantidade de cães e gatos abandonados , cala-se,  finge-se de cega , surda e muda e continua a dar ibope para a emissora…que beleza…assumem o papel de cúmplices e deixam entrar em sua casa , diante do olhar de seus filhos, esse tipo de programação.

É interessante que depois ficamos debatendo temas que não seriam necessários, como a gravidez adolescente, os abortos , a AIDS e outras DST’s , o tal uso da camisinha, de métodos anticoncepcionais; o governo gastando milhões em saúde pública para atender gestantes “acidentais” , portadores do HIV, distribuindo piluas anti-concepcionais e camisinhas aos milhões, quando tudo isso seria  evitado ou ao menos minimizado se nossa juventude e nossa sociedade tivesse mais heróis do que “cabeças ocas”, do que “descolados” que “não estão nem aí com a hora do Brasil”.

O que ninguém parece perceber é que , quando se incentiva os jovens a usarem camisinha, na verdade esta-se incentivando-os a serem promíscuos desde que devidamente “cuidadosos”.

Seria mais interessante se o foco fosse o de manter-se longe do sexo fácil e descomprometido, mas nossa sociedade adora criar os problemas para depois correr atrás de falsas soluções.

Não é pois de se admirar que os jovens de hoje sejam, em sua maioria, “programados ” para serem verdadeiros “Maria vai com as outras.

Mas voltemos aos nosso heróis que, verbal ou silenciosamente, dizem NÃO a todo tipo de atitude que pode causar transtornos à sua saúde física, emocional e espiritual.

É claro que eles enfrentam barreiras enormes, afinal, se nós mesmos queremos ser aceitos socialmente por um determinado grupo ou vários deles, imagine esses rapazes e moças que fazem o contraponto ao que é considerado normal e desejável pelos “padrões” ( ou falta deles ) atuais.

Claro que eles sofrem todo tipo de pressão, todo tipo de preconceito, algumas vezes são execrados dos grupos sociais, nessa inversão leviana de valores com a qual convivemos na atualidade.

Mas, não se pode esperar muito mais do que isso, daqueles filhos de uma sociedade que acha a moralidade um crime e todos os que pregam os bons principios um bando de “moralistas” e hipócritas.

Vivemos a ilusão do “uma vez só não faz mal “; “Não tem ninguém olhando”; “Eu não conto se você não contar”…

Ainda bem que existem os heróis adultos; ainda bem que existem os jovens heróis… por mais anônimos que pareçam ser.

Cada um deles, que recusa-se a rebaixar seus padrões, é uma pedra de esperança , é uma luz no fim do túnel do futuro de uma sociedade que parece não ter futuro ou esperança.

Esses heróis não precisam de pistolas ou fuzis para combater o narcotráfico, a criminalidade ou a indústria da degradação moral; esses heróis precisam apenas de sua voz e de uma única palavra proferida quantas vezes seja necessária: NÃO!

A todos os heróis anônimos deste nosso país e deste nosso mundo, desde os moradores do complexo do alemão e todas as comunidades deste Brasil afora, até aqueles de melhor condição social e que , ainda assim dizem NÃO, a minha sincera homenagem e agradecimento por manterem viva a chama de uma sociedade íntegra.

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