A IMPORTÂNCIA DE CONHECER A ESTRUTURA LINGUÍSTICA DA LIBRAS PARA O EDUCADOR

RESUMO

 A importância de conhecer a estrutura linguística da Libras, para o educador interagir com os alunos portadores de deficiência auditiva/ surdez. O valor do interprete Libras/ Português, na sala de aula e, a integração professor/interprete/aluno. Além das questões de direitos: A Constituição Federal de 1988 e demais Leis que garantem Educação de qualidade a todos, incluindo pessoas com qualquer tipo de deficiência. E o dever do Estado de fomentar –dar condições- para que “todos” tenham acesso à escola pública e gratuita. O surdo deve ir à escola para aprender e, não somente, para socialização com outros indivíduos; daí, a importância, não só dos professores, conhecerem a Linguagem Brasileira de Sinais – LIBRAS, mas de todos os Educadores envolvidos no processo educacional, incluindo a família.

 Palavras-chave: Surdez; Libras; Educador.

 1 INTRODUÇÃO

Fala-se muito na inclusão de pessoas com deficiência na escola comum; são consideradas “escolas comuns”, as escolas frequentadas por indivíduos considerados “normais”. Com a formulação de políticas públicas voltadas à população que sofrem de algum tipo de deficiência, esses indivíduos, que até então, não tinham acesso as escolas comuns, começam a serem aceitos nessas instituições de ensino. Porém, faltou alguma coisa; os professores não foram preparados para receberem os novos alunos.

 Neste texto estudaremos somente a deficiência auditiva/surdez. De acordo com o censo demográfico realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística-IBGE, em 2000, existem no país 519.460 surdos de até 17 anos de idade, e 256.884 entre 18 e 24 anos. Desse total apenas 56.024 estão matriculados no sistema escolar, ou seja, quase 93% estão fora da escola.

Veja que o desafio é enorme, se só temos 7% dos indivíduos com problemas auditivos, nas escolas, e os professores já passam por dificuldades, imagine quando tivermos 100%.

 Perceba, que não resta dúvida da importância do professor conhecer a estrutura linguística da LIBRAS. O Decreto n° 5.626 de 22 de Dezembro de 2005, que regulamenta a Lei- 10.436 de 24 de Abril de 2002, que dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais-LIBRAS, e o artigo 18 da Lei-10.098 de 19/12/2000

 Art. 3° A Libra deve ser inserida como disciplina obrigatória nos cursos de formação de professores para o exercício do magistério, em nível médio e superior, e nos cursos de Fonoaudiologia, de instituições de ensino, públicas e privadas, do sistema federal de ensino e dos sistemas de ensino dos Estados do Distrito Federal e dos Municípios. (RAFAELI; SILVEIRA, 2009, P.20).

 Entretanto, de nada adianta o professor saber Libras, se o aluno não souber. Primeiro passo, portanto, deve ser disseminar a linguagem de sinais – Libras, entre as crianças com deficiência auditiva. Os pequenos, surdos, devem ser alfabetizados em Libras, para depois o professor (a) ensinar a segunda Língua – Português, e, consequentemente as demais disciplinas.

 Segundo a Pedagoga Débora Kober, “Primeiro, a criança surda deve passar por um processo de construção de pleno acesso a Libras, para ter toda informação do aspecto visual da Língua escrita e, só depois que a conhece, estará apta a iniciar um processo de inclusão”. (www.libras.ufsc.br). Até porque há alunos que também desconhecem a Libras, então não adiantaria nada o professor fazer a tradução para tal linguagem.

Ao longo deste texto estaremos discorrendo sobre as leis e teóricos que falam sobre a Linguagem Brasileira de Sinais e, da importância dos educadores terem o domínio, conhecimento da estrutura linguística da Libras.

 2 LÍNGUA PORTUGUESA E LIBRAS

 A Língua Portuguesa é, para os brasileiros ouvintes, a Língua Materna, através dela nos comunicamos, expressamos nossos sentimentos, escrevemos e lemos. Sendo ouvintes, não temos dificuldades em interagir com os demais falantes da Língua. Porém, os indivíduos com deficiência auditiva – surdez, não conseguem ouvir os sons. Logo, não conhecem a diferença fonética, ou os fonemas que formam as palavras. Dessa forma, a maioria não desenvolve a fala.

 Vamos entender melhor: os surdos são pessoas que nasceram dessa forma ou tiveram alguma doença no período pré-linguagem; portanto, não têm aproveitamento da fala. O deficiente auditivo é considerado aquele que adquiriu a surdez no período pós-linguagem. Ou seja, uma pessoa que ouvia e por algum motivo perdeu a audição. Sendo assim, ele consegue fazer uso da oralidade por meio de leitura labial ou pelo uso de uma prótese e, consequentemente, é capaz de ler e escrever com fluência. Conforme (RAFAELI; SILVEIRA, 2009, p.4), “Nem todo surdo é mudo e nem todo mudo é surdo”.

 Para Fernandes (2003), citado por (RAFAELI; SILVEIRA, 2009, p. 4)

Surdez é a privação total ou parcial do sentido de ouvir. Essa incapacidade pode ser de origem congênita, causada por viroses maternas; doenças tóxicas desenvolvidas durante a gravidez; predisposição genética, etc…, ou adquirida, isto é, a pessoa pode nascer surda ou adquirir posteriormente através de uma doença ou acidente.

 Agora que sabemos o que é surdez, vamos nos ater ao modo como essas pessoas se comunicam e, de que forma o professor deve se preparar para interagir com esses alunos. Ou seja, como um professor ouvinte irá educar seu aluno surdo? Como fazer a mediação entre conhecimento e educando? No mínimo terá que aprender, mesmo que basicamente, uma segunda língua, neste caso – Libras.

 A Lei 10.436/02, no seu Art. 1°, parágrafo único, define a Língua Brasileira de Sinais- Libras como forma de comunicação e expressão em que o sistema linguístico de natureza visual-motora, com estrutura gramatical própria, constitui um sistema linguístico de transmissão de idéias e fatos oriundos de comunidades de pessoas surdas do Brasil.

   4 O PROFESSOR OUVINTE E O ALUNO SURDO

 A princípio parece estranho; como um professor ouvinte ensinará uma criança surda? Os alunos ouvintes têm suas maneiras de aprenderem, porém, pessoas com deficiência auditiva/surdes são diferentes, visto que não ouvem os sons.

Para a educação de alunos surdos, existem algumas filosofias que devemos levar em consideração:

  • Oralismo: o objetivo é ensinar o surdo a falar.
  • Comunicação total: tem por objetivo usar todos os meios disponíveis que possam facilitar a comunicação.
  • Bilinguismo: o objetivo é usar a Linguagem de Sinais para educar o surdo.

Conforme Costa apud (NASCIMENTO, 2007, p. 103) “No Bilinguismo, propõe-se que o surdo adquira a Língua de Sinais desde a mais tenra idade, assim como os ouvintes a fala. Nesta perspectiva, as crianças surdas passam por estratégias de desenvolvimento linguístico muito semelhante às crianças ouvintes”.

Naturalmente, se faz necessário que o professor (a) tenha o mínimo de conhecimento de Libras. Mesmo que haja um intérprete em sala de aula auxiliando a criança surda, é imprescindível que o professor (a) interaja diretamente com o aluno e, para isso, deve ter conhecimento da linguagem desse indivíduo.

O que se vê em salas de aula, onde há uma criança surda e, trinta crianças ouvintes, é; o professor ensinando toda a classe em um mesmo tom. Ou seja, os alunos ouvintes ouvem, enquanto isso, o intérprete tenta passar alguma coisa para o aluno (a) com deficiência auditiva. Será que o indivíduo surdo, sendo a aula ministrada de tal forma, terá a mesma oportunidade de aprendizado dos demais? – Então o que fazer? Podemos dizer que nem mesmo os alunos considerados normais, aprendem de igual modo… Mas pelo menos eles ouvem, estão ouvindo o que o professor fala. E o surdo?

Não estou descartando o intérprete. Mas, o responsável pelo aprendizado do aluno é o professor, e este, através da interação direta com o educando, deve perceber o que e como ele aprendeu, ou, não aprendeu. E tal interação somente se dará se professor e aluno falarem a mesma língua.

 “O conceito mais importante da filosofia bilíngue é que a surdez não é vista como uma incapacidade, mas como uma especificidade; não como uma deficiência, mas como uma diferença”. (NASCIMENTO, 2007, p. 103). Ou seja, o surdo é tão capaz quanto o ouvinte, basta que tenha oportunidade real de aprendizagem. Para isso o professor (a) deve estar preparado para receber este aluno em sala de aula e, naturalmente, entender pelo menos basicamente, sua linguagem.

Para que a educação do aluno surdo realmente surta efeito, o professor (a) ouvinte precisa reconhecer o surdo como alguém tão eficiente quanto. Nesse sentido, o uso do bilinguismo tem como objetivo fortalecer as potencialidades para, de fato, ocorrer a educação inclusiva de qualidade. De nada adianta encher as escolas de crianças surdas ou quaisquer outras deficiências, se os professores não estiverem preparados, nem mesmo o espaço físico da escola.

Por outro lado, existem as divergências. O Decreto5626/05 da Lei 10.436/02 prevê a inclusão da Libras na formação dos profissionais da área, mas penso que isso não é o suficiente, porque se não vivenciar o idioma, não vai resolver nada. É o mesmo que ensinar Inglês nas escolas, para alunos do ensino fundamental, se ele não tiver com quem conversar em Inglês, não resolverá nada. Aliás, esses professores (a) que ensinam Inglês nas escolas de Ensino Básico, realmente falam tal Língua?

O mesmo se dá com a Libras, há professores que têm formação para atuar com surdos, mas não possuem domínio da língua de sinais. Também há intérpretes que atuam como tal, mas não têm a formação adequada. Até porque o curso de formação desses profissionais é muito recente, e o mercado ainda tem carência de profissionais qualificados. Tanto é que existem tentativas do Ministério da Educação (MEC) de criar uma certificação, para atestar quem realmente tem proficiência em Libras. Para que a presença do professor bilíngue, e do intérprete em sala de aula surta os resultados esperados, é essencial que ele seja um bom usuário do idioma, para dar o tom natural da comunicação.

5 CONCLUSÃO

 Como observamos no decorrer deste texto, com a inclusão de alunos surdos na escola comum, é de extrema importância que o professor tenha conhecimento da estrutura linguística da Libras. Vimos também, que conforme pesquisa do IBGE, apenas 7% das pessoas portadoras de deficiência auditiva estão matriculadas nas escolas. Logo, 93% desses indivíduos, por algum motivo, estão fora da sala de aula.

Não basta o professor ou intérprete fazerem um curso de Libras, se realmente não “mergulharem” na cultura surda. Ou seja, para sabermos Libras, não basta aprendermos alguns sinais, é preciso interagir, aprender como o mudo vê o mundo, literalmente. Aí poderemos dizer que falamos a mesma língua, e que, faremos a diferença na Educação desses indivíduos.

Mas, como tudo tem um começo, precisamos desde já, nos aperfeiçoar para esta tarefa tão importante, que é Educar. O verbo “Educar” deve sempre ser escrito com iniciais maiúsculas, seja em Português ou Libras. “Educar é tarefa importante e difícil, e não há receita que ensine como se relacionar com um filho portador de deficiência auditiva. Porém, algumas atitudes apresentam resultados positivos, quais sejam: vê-lo como uma criança normal […]” (www.ines.gov.br) apud Rafaeli e Silveira, 2009, p.90.

6 REFERÊNCIAS

NASCIMENTO, Luciana Monteiro. Educação especial. Associação Educacional Leonardo da Vinci-(ASSELVI). – Indaial: Ed. Asselvi, 2007.

RAFAELI, Kátia Solange [e] SILVEIRA, Maria Solange. Língua Brasileira de Sinais. Centro Universitário Leonardo da Vinci. – Indaial: ASSELVI, 2009.

www.libras.ufsc.br acesso em 10/11/09.

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